
As entrevistas são uma fase crucial do processo analítico. Negligenciá-las implica a perda da qualidade do atendimento, da sua eficácia e da própria manutenção do paciente no Setting. Uma entrevista malfeita gera:
A) rotatividade de pacientes;
B) prejudica quem busca ajuda;
C) ameaça a subsistência do psicólogo
D) E a estabilidade profissional do analista.
Portanto, as Entrevistas Preliminares devem atender várias demandas tanto do paciente que procura ajuda e deve receber um atendimento adequado e do psicólogo que precisa das condições ideais para realizar a sua tarefa. Condições estas que precisam ser trabalhadas antes de iniciar o tratamento propriamente dito, por isso, as entrevistas visam cumprir algumas funções essenciais:
- Psicodiagnóstico psicológico: o diagnóstico psicológico seja ele cognitivo, funcional ou psicodinâmico é o que norteia a direção do tratamento tendo em vista que todo diagnóstico é provisório sendo apenas um ponta pé inicial. É muito comum os psicólogos utilizarem de referências diagnósticas da psiquiatria, no entanto, eles não servem se não forem realizados em conjunto com o diagnóstico psicológico que dará a dimensão cognitiva, psicodinâmica emocional ou funcional (ambiental comportamental);
- Criar uma demanda de análise: Para isso, o cliente precisa estar implicado com sua própria subjetividade. É como o paciente vir com uma demanda psiquiátrica e como no modelo médico achar que será um agende passivo no processo tendo que apenas relatar seus sintomas sem nenhuma elaboração da sua parte. Em psicologia essa passividade deve ser quebrada para uma implicância ativa no processo;
- Alinhar o mandato e o demandante: Nem sempre o cliente surge com um mandato próprio (pode vir por terceiros), nem sempre endereça a demanda ao analista correto, e raramente tem consciência de que sua demanda diz respeito à sua subjetividade. Buscar por atendimentos em saúde mental é sempre um estigma que fere o narcisismo do sujeito e portanto o leva a uma recusa total ou parcial ao acompanhamento psicológico: parcial por que todo paciente tem suas resistências e portanto não coopera na dimensão do ideal.
- Ampliar a consciência da extensão da queixa: É comum o paciente achar que apenas seus sintomas físicos são o problema. Se olharmos para quando iniciou o sofrimento, quais as limitações que trouxe de lá pra cá, como buscou lhe dar com seus sintomas, como buscou disfarçá-los, a partir de que momento se agravou ao ponto de agora pedir ajuda, enfim, quais os prejuízos de longo prazo e prejuízos futuros caso se agravem ele verá que não foi pouca coisa, mas se irmos mais fundo e considerarmos a subjetividade por trás dos sintomas e sinais e quais as consequências dessa subjetividade no rumo que a vida do sujeito tomou veremos que o impacto é muito maior do que se apenas investigarmos o impacto do sintoma. A verdade é que a mudança de uma subjetividade altera a rota de uma vida inteira e não apenas uma experiência isolada de bem-estar.
As entrevistas servem também para um diagnóstico flutuante (provisório [seja psicodinâmico, cognitivo, funcional, psiquiátrico, etc]). Entender em qual estrutura o paciente transforma a experiência analítica (Neurose, Perversão, Borderline ou Psicose), quais as defesas predominantes e quais repetições ele mantém, ajuda a compreender as fantasias (ou pensamentos disfuncionais) que ele estabeleceu sobre sua história. Isso define o manejo: divã ou poltrona, frequência de sessões, contrato de prova ou contrato rígido.

MANDATO E DEMANDADO
1. Mandato em nome de terceiro
Aqui, podemos pensar didaticamente em dois tipos de pacientes:
- O “trazido”: Aquele que vem por indicação médica (psiquiatra, neurologista) ou pela família. Geralmente apresenta sofrimento acentuado que preocupa os outros, mas ele próprio não vê necessidade de terapia. Tende a achar que o problema é orgânico ou culpa do mundo/família, sem assumir responsabilidade por seus sintomas. Esse paciente dificilmente terá motivação inicial para associações livres. O dilema é: como atender alguém tão desimplicado?
- O “passivo”: Aquele que aceita o atendimento, mas pede para outra pessoa agendar (a esposa, por exemplo). Aqui cabe o questionamento: de quem é a demanda? Se ele não dispõe de um minuto para uma mensagem, como disponibilizará uma hora semanal para a análise? Se aceitarmos agendamento feito pela esposa para o marido, poderemos estar recebendo alguém como quem recebe um carro enviado para o conserto. Corremos o risco de entrar em conluio narcísico com a esposa, realizando uma “antiterapia”. Psicólogos em dificuldades financeiras tendem a aceitar essas demandas por necessidade própria, pervertendo a clínica em “loja de conserto”.
2. Mandato em nome próprio
Também observamos dois perfis:
- O paciente do “profissional errado”: Ele busca ajuda por iniciativa própria, mas usa o psicólogo como um “avatar”: chama de psicólogo, mas enxerga um médico, um coach ou um guru. Ele espera passivamente que o analista encontre uma “memória patogênica” e o entendimento (o remédio) que resolva tudo, ou de o conselho que direcionará sua vida, mas não assumindo a responsabilidade por ela caso de errado o aconselhamento.
- O paciente em busca do profissional perdido: Há também o paciente que já passou por outras terapias. Ele pode tentar reencontrar no novo psicólogo a vida vivida na memória com o anterior. E aqui não é apenas uma diferença de abordagens teóricas, mas também de estilo, afinal, psicólogos ou psicanalistas da mesma abordagem trabalharam diferente devido as suas diferenças de personalidades. Cabe ao analista marcar (indiretamente nas entrelinhas) que cada experiência é singular e que o descompasso no endereçamento da queixa influenciará diretamente o sucesso do trabalho.
- O psicólogo que não sabe que é psicólogo: de uma forma geral precisamos ter claro quem somos para não aceitar os papéis que nos são impostos indiretamente:
a) Psicólogos e Psicanalistas não são biógrafos de seus pacientes, nem historiadores: A clínica não é feita de história, mas de estórias; a clínica é feita do mito de cada um, expresso em seus pensamentos disfuncionais (pensamentos automatizados) ou em fantasias expressas nas repetições e Transferência. Quando o paciente conta o que sabe sobre os fatos de sua vida ele está fazendo um recorte daquilo que corrobora para a sua versão sobre sua vida, assim, as histórias são uma forma de metáfora para a fantasia, portanto, uma estória no sentido próprio do termo.
b) Psicólogos e Psicanalistas não são advogados, promotores ou juízes: por isso, não estão na sessão para defender, aprovar ou desaprovar o paciente. A terapia não é um lugar de julgamento moral, mas sim a avaliação emocional e ideacional. A régua da moralidade normalmente trás inibições e entraves para o atendimento. Assim, a postura de não julgamento faz parte da técnica, mas também da ética da profissão.
c) Psicólogos e Psicanalistas não são jornalistas: portanto, não trabalham com fatos jornalísticos, não irão se perguntar se é verdade ou fake o que o paciente conta, pois, trabalham estórias (mitos pessoais) e com fatos clínicos, e esses são psíquicos: os lugares que o paciente se coloca predominantemente em seus relatos, suas formas de reagir às intervenções, como colabora, o que pensa e diz sentir, que clima emocional cria na sessão, que vínculo estabelece com o profissional, seus pensamentos disfuncionais, associações livres etc, desses elementos é feito a terapia e não do acontecimento factual.
d) Psicólogos e Psicanalistas não são gurus, coach, guia espiritual: o conselho, as dicas indiretas podem dar certo, mas geram dependência. O paciente que não decide sem consultar seu psicólogo, pode ser bem sucedido nas suas ações, mas não se responsabilizará pelo seu sucesso nem pelo seu fracasso.
- O Psicólogo ou Psicanalista é o profissional que estuda e psique, portanto, o simbólico, o representacional, o subjetivo, o interno, é o campo de observação e intervenção e como profissional do psiquismo deve ser sustentar em cada movimento, pergunta, comentário ou interpretação que realiza o lugar de sua identidade profissional, apesar das inúmeras investidas projetivas do paciente que busca, indiretamente, dar-lhe outro papel. Essa imposição inegociável do lugar que se ocupa deve ser sustentada com firmeza nas Entrevistas Preliminares e mantida durante o tratamento ou análise. Clique aqui (parte dois).
