A Heurística Clínica e a Associação Livre de Ideias: da escuta à compreensão.
Clinical Heuristics and Ideias Free Association: From Listening To Understanding.
Asociación Clínica de Ideias y Heurística Gratuita: Desde Escuchar Hasta Comprender.
Association Libre D’Heuristique Clinique et D’Idees: De L’écoute A La Compréhension.
Adriano da Silva Serra1
Profª Drª Maria de Fatima Chiavarelli2
Resumo
Este artigo guiou-se pela pergunta: qual é a essência da escuta clínica? recorrendo para isto de referências bibliográficas em uma leitura interpretativa que buscou comparar a Associação Livre de Ideias concebida pelo Empirismo Filosófico e pela Psicanálise. Justifica-se pela quantidade de perspectivas teóricas e técnicas que há, porém, sem deixar claro qual é a metodologia central que as práticas comportam. Compreendeu-se que a escuta psicanalítica é descentraliza de tudo aquilo que o paciente busca imprimir conscientemente e que por essa razão é avessa a prática científica tradicional, mas possui metodologia e objeto de investigação como toda ciência.
Palavra-chave: Heurística Clínica. Associação Livre. Escuta. Psicanálise. Prática Clínica.
Abstrat
This article was guided by the question: what is the essence of clinical listening? Drawing on this from bibliographical references in an interpretive reading that sought to compare the Free Association of Ideas conceived by Philosophical Empiricism and Psychoanalysis. It is justified by the amount of theoretical and technical perspectives that exist, however, without making clear what is the central methodology that practices support. It was understood that psychoanalytic listening is decentralized from everything that the patient consciously seeks to impress and for this reason is contrary to traditional scientific practice, but has methodology and research object as all science.
Keywords: Clinical Heuristics. Free Association. Listening. Psychoanalysis. Clinical Practice.
Resumen
Este artículo fue guiado por la pregunta: ¿cuál es la esencia de la escucha clínica? Partiendo de referencias bibliográficas en una lectura interpretativa que buscaba comparar la Asociación Libre de Ideas concebida por el empirismo filosófico y el psicoanálisis. Sin embargo, se justifica por la cantidad de perspectivas teóricas y técnicas que existen, sin dejar en claro cuál es la metodología central que respaldan las prácticas. Se entendió que la escucha psicoanalítica está descentralizada de todo lo que el paciente busca conscientemente impresionar y por esta razón es contraria a la práctica científica tradicional, pero tiene una metodología y un objeto de investigación como toda la ciencia.
Palabras clave: Heurística clínica. Asociación libre. Escucha Psicoanálisis Práctica clínica.
Résumé
Cet article a été guidé par la question suivante: quelle est l’essence de l’écoute clinique? A partir de références bibliographiques dans une lecture interprétative cherchant à comparer l’Association libre d’idées conçue par l’empirisme philosophique et la psychanalyse. Il est toutefois justifié par le nombre de perspectives théoriques et techniques existantes sans préciser quelle est la méthodologie centrale prise en charge par les pratiques. Il était entendu que l’écoute psychanalytique est décentralisée par rapport à tout ce que le patient cherche consciemment à impressionner et est pour cette raison contraire à la pratique scientifique traditionnelle, mais a une méthodologie et un objet de recherche comme toute science.
Mots-clés: Heuristique clinique. Association libre. Écoute Psychanalyse. Pratique clinique
1 INTRODUÇÃO
Desde que me iniciei como paciente, muito antes de ser estudante de psicologia, intrigavam-me os efeitos que a psicoterapia tivera em minha vida; não sabia dizer como ela funcionava. Cada sessão sempre me parecia uma conversa estranha – nunca conversava aquilo que pretendia falar, o assunto sempre se desviava para algo totalmente diverso daquilo que eu me programara, e, apesar da frustração das minhas intenções, sentia que algo de importante tinha acontecido.
Como estudante de psicologia, sentia-me atraído por esse estranhamento que aparentemente só a psicoterapia de orientação psicanalítica evocava; e pensava: deve haver alguma ciência nisso tudo. Percebi que essa preocupação não era só minha – quando Wilhelm Reich, em ‘Análise do Caráter’, perguntava sobre como fazer uma Psicanálise que não fosse apenas uma questão de gosto, entendi essa pergunta como uma busca por alguns critérios.
Em outro momento, quando li uma crítica de David Zimerman sobre a postura de quem apenas macaqueava o analista, senti-me na possibilidade de, em caminhos errados, tornar-me uma cópia grotesca: fui me intrigando cada vez mais. Entretanto, dez anos se passaram; mais recentemente, li Fábio Herrmann propondo a questão de como realizar uma Psicanálise que não seja apenas uma cópia dos mestres. Tive a impressão de que essas angústias não eram preocupação apenas dos iniciantes como eu, mas dos mestres também.
Creio que todos esses questionamentos trazem em si uma questão comum: qual é a essência da escuta clínica? Esta é a pergunta que conduz este trabalho, delimitado ao caminho que se percorre mentalmente para a compreensão do material clínico. Fui me conscientizando de que o bom uso das teorias já formuladas dependeria dessa resposta; considerei também que nós, psicólogos de orientação psicanalítica, não temos uma formação tão vasta quanto um psicanalista de formação e que, por isso, temos um conhecimento restrito se comparado a este; portanto, o conhecimento do essencial constitui o mínimo que se deve saber.
Nesse ínterim, podemos dizer que a técnica psicanalítica passou por várias transformações ao longo de sua história. Desde a hipnose, que induzia nos pacientes um estado livre de resistências e total submissão aos questionamentos e sugestões do terapeuta, à técnica catártica, que consistia em, ainda sob sugestão, levar o paciente a reviver e ab-reagir os acontecimentos relacionados aos seus sintomas; à técnica da insistência, que utilizava como uma de suas medidas a pressão na testa, onde, ainda sob um viés sugestivo, induzia o paciente a recordar eventos de sua vida ligados ao sintoma, quebrando assim as resistências do paciente; enfim, à técnica da Associação Livre de Ideias, que, abandonando o viés sugestivo, buscava apenas mobilizar o paciente a vencer suas resistências, motivado por uma transferência positiva e aliança de trabalho. (Racker, [1982] 1988)
De seu início para cá, portanto, o que se alterou foram as diferentes formas de operar sobre o cooperar do paciente; hoje se espera a mesma disposição interna de quem estava sob hipnose, no entanto, sem nenhum subterfúgio, apenas uma aliança consciente de trabalho para que as resistências sejam vencidas e suas fantasias sejam conscientizadas. Por outro lado, algo se manteve o mesmo – o objetivo de tornar consciente o inconsciente.
Pensara que o caminho se iniciaria, então, pela compreensão da Associação Livre de Ideias e sua contraparte, a Atenção Flutuante, que assumiu o status de regra fundamental para a Psicanálise (Herrmann, [1979] 1991) e é comumente usada por terapias que buscam uma certa dose de retorno do reprimido, como as “psicoterapias orientadas psicanaliticamente” (Greenson, 1981, p. 35).
Para isso, recorreu-se a uma revisão bibliográfica em uma leitura interpretativa (Gil, 2009), partindo de uma comparação entre a concepção de Associação Livre de Ideias no empirismo filosófico, especialmente em David Hume, que ainda influencia fortemente as ciências atuais, inclusive a psicologia, e a Associação Livre de Ideias segundo as transformações que ocorreram com o advento da Psicanálise (Marx & Hillix, [1963] 1976).
Concluiu-se que a Associação Livre de Ideias é diversa em seu caráter psicanalítico justamente por ter como objeto de escuta o pensamento involuntário e a emoção, ao contrário das correntes empiricopositivistas, que têm como objeto de escuta o pensamento voluntário (conscientemente intencional) e a racionalidade como forma de correlacionar e compreender os dados coletados; assim, a escuta se faz de forma descentralizada de tudo aquilo que o paciente busca intencionalmente imprimir.
2. DA HEURÍSTICA CLÍNICA
Há diferentes definições de heurística, entretanto, em essência, trata-se dos meios pelos quais o indivíduo percorre cognitivamente para inventar, descobrir ou se aproximar progressivamente da solução para um dado problema (Villar & Houaiss, 2009). Portanto, é compreendida como uma atividade tipicamente humana; pode ser considerada uma técnica de pensamento quase automático no ser humano, porém, ao ser compreendida conscientemente, pode-se aumentar o nível de assertividade das incursões que se busca solucionar.
A Clínica aqui é tomada no seu sentido clássico, no ato médico que, ao se inclinar sobre seu paciente, busca fazer a ausculta: “ato de escutar os ruídos internos do organismo, para controlar o funcionamento de um órgão ou perceber uma anomalia” (Villar & Houaiss, 2009, p. s/p).
O médico, ao ouvir o coração, tem sua escuta marcada por um padrão de intensidades e ritmos, e tudo aquilo que destoa desse padrão é percebido como anômalo; de acordo com essa anormalidade, é capaz de inferir o funcionamento desse órgão e intervir sobre ele. Sua escuta, portanto, possui uma heurística que o aproxima cada vez mais da situação-problema e lhe permite descobrir dados novos. Na psicanálise, essa heurística passa pela Associação Livre de Ideias, e Freud a considerou a regra fundamental pela qual o raciocínio clínico perpassa e forma seu entendimento.
3. DA ASSOCIAÇÃO LIVRE DE IDEIAS
É bem sabido que um pensamento não acontece dissociado de seu tempo; mesmo Freud, com sua genialidade, como todos nós, foi também filho da cultura. Assim, quando ele se propôs a fazer ciência, apesar das descobertas que trouxe à ciência do psiquismo, refletiu também aquilo que era o pensamento predominante da sua época. O termo Associação Livre, por exemplo, foi extraído por Freud da doutrina empirista que imperou na Alemanha do século XIX e influencia a psicologia até os dias de hoje (Jorge, 2007).
Inserido em um Sistema Associacionista, cuja fundamentação vem da filosofia empirista, que remonta às ideias de Aristóteles, retomadas a partir do século XVII por muitos, entre eles David Hume, Berkeley, John Locke e John Stuart Mill, seria impossível dissociar-se dessas influências, haja vista que a regra fundamental da Psicanálise é a Associação Livre de Ideias: objeto exaustivamente debatido pelos referidos filósofos (Jorge, 2007).
E aqui nos aproximamos de Hume: não é o eu que constitui as associações, mas, ao contrário, estas é que constituem o eu. Não existe uma natureza humana anterior à experiência, mas a natureza humana, o eu e a mente devem ser concebidos como efeito da experiência. A fonte inspiradora de Stuart Mill é o ‘Tratado da Natureza Humana’, de Hume, e tanto Stuart Mill quanto Hume são fontes de inspiração para Freud (Garcia-Roza, 2004, como citado em Jorge, 2007, p. 50).
É bem verdade que Freud deu um outro andamento à compreensão da Associação Livre de Ideias: se para Hume e Mill o Eu era consequência das experiências externas e, portanto, eram as associações de estímulos que formavam o Eu e suas ideias, para Freud a experiência estava subordinada a estímulos internos naturais, às Pulsões, que dariam à experiência externa um novo colorido, de acordo com os estados tensionais no interior do organismo (Freud, [1923-1925] 1996).
Hume ([1711-1776] 2004) reescreveu o ‘Tratado da Natureza Humana’ com outro título (‘Investigação Sobre o Entendimento Humano e Sobre os Princípios da Moral’), mas com o mesmo objetivo: estabelecer uma heurística por onde todas as ideias passam, ou seja, regras às quais as ideias estão subordinadas e que destinam sua ligação umas às outras.
Para Hume, se utilizarmos os pressupostos pelos quais a mente humana funciona, poderemos entender como se formou o entendimento que as pessoas formulam sobre a sua realidade e sobre suas vidas. Para ele, até os sonhos poderiam ser interpretados pela Associação Livre de Ideias:
E mesmo em nossos devaneios mais doidos e extravagantes, em nossos próprios sonhos, a análise mostrará que a imaginação não procede inteiramente do acaso, mas há sempre uma conexão entre as diferentes ideias que sucedem umas às outras (Hume, [1711-1776] 2004, p. 41).
David Hume escreveu essas linhas mais de cem anos antes de Freud se utilizar da Associação Livre para interpretar sonhos; pensamento este que também influenciou fortemente Auguste Comte (que morou com John Stuart Mill por quase dez anos) na elaboração de uma ciência positivista (Comte, [1842] 1978). Para o sistema empiricopositivista, portanto, as associações aparecem regidas por leis, e o homem está determinado por elas.
É bem verdade que Freud não iniciou o uso da Associação Livre por iniciativa própria ou por uma escolha metodológica. Seu uso se deu por exigência de sua paciente Frau Emmy von N., que lhe pediu para parar de interromper sua fala; esta, realizada de forma livre, desprendida, possibilitou percorrer caminhos que antes eram percorridos pelo método hipnótico e catártico (Jorge, 2007).
As leis pelas quais Hume considerava determinante o processo de construção do entendimento humano serão citadas logo adiante, mas vale dizer que Freud concorda com os pressupostos elencados pelo empirismo:
O primeiro desses sistemas Mnem. conterá, naturalmente, o registro da associação por simultaneidade temporal, ao passo que o mesmo material perceptivo será disposto nos sistemas posteriores em função de outros tipos de coincidências, de maneira que um desses sistemas posteriores, por exemplo, registrará relações de similaridade, e assim por diante, no que concerne aos outros. (Freud, [1900] 2001, p. 510)
Como veremos, simultaneidade temporal equivale às relações de contiguidade para o empirismo, e relações de similaridade equivalem às relações de semelhança para o mesmo sistema; entretanto, Freud ([1900] 2001) enfatiza que isso ocorre em condições ideais de baixíssima resistência. Essa hipótese, considerada por ele, foi apenas de natureza geral, sem levar em conta as descobertas do processo de interpretação dos sonhos; entretanto, quando esta é levada em conta, faz-se necessário inferir a existência de outra instância que submete aquela primeira à crítica, gerando com isso consequências sobre o registro de nossas impressões, o que tem por consequência o estabelecimento de uma metodologia diversa daquela que o empirismo considera como ideal.
3.1 Heurística empirista: a lógica do manifesto
Para Hume, parece óbvio que uma conversa sempre mantém sua coesão e, justamente por ser assim, quando quebrada ela é facilmente percebida. Se investigássemos a razão de sua quebra, descobriríamos outras ideias associadas que, por alguma razão, manteriam vínculo com a primeira; mesmo em uma conversa indisciplinada, se observarmos as diversas transições, perceberíamos que algo se manteria coeso ([1711-1776] 2004).
Ele acreditava que, por mais que a nossa mente pareça ilimitada em sua imaginação e criatividade, “o poder criador da mente consiste meramente na capacidade de compor, transpor, aumentar ou diminuir os materiais que os sentidos e a experiência nos fornecem”. Assim, se queremos conhecer as ideias complexas que o ser humano compõe, basta que as decomponhamos em suas ideias mais simples e nos perguntemos de onde deriva a impressão que as originou (Hume, 1711-1776, 2004, p. 35).
Para ele, a mente humana é regida por algumas leis que possuem método e regularidade, determinam as associações e podem ser observadas na transição de cada ideia. Seus princípios de conexão são: de semelhança, de contiguidade de tempo ou espaço e de relações de causa ou efeito. Considera também que raramente o homem fala, age ou pensa sem nenhuma intenção; assim, esses princípios formam uma unidade de ação com a finalidade de concretizar uma intenção.
Vejamos alguns exemplos desses princípios de conexão na própria Psicanálise. A começar pelo exemplo apresentado por Bion (1965, como citado por Figueiredo, 2011, p. 19):
Suponha que um pintor vê uma trilha que atravessa um campo semeado de papoulas e a pinta: em um extremo da cadeia de eventos está o campo de papoulas, no outro, uma tela com pigmentos dispostos em sua superfície. Podemos ver que o último representa o primeiro e assim irei supor que apesar das diferenças entre o campo de papoulas e uma tela, apesar das transformações que o artista efetuou no que ele viu para fazer com que isso tome a forma de um quadro, algo permanece inalterado e o reconhecimento depende desse algo.
Este algo citado acima seria, para Hume, a semelhança existente entre o campo e a sua representação, que, apesar das diferenças, conservam certa integridade de relação; mesmo que seu observador não esteja diante da paisagem que o inspirou, o quadro não é algo incognoscível, pois possui unidade estrutural em suas formas e é dotado de sentido. O artista pode ter produzido pelo critério da similaridade, e o espectador da obra a reconhece sob o mesmo critério.
O raciocínio por Semelhança ainda permite outra possibilidade – a negação (oposição). A negação só é possível diante de uma afirmação; a oposição só se efetiva diante de seu contrário, ou seja, a oposição sempre terá como referência o seu contrário e, por isso, conserva certa integridade perante aquele, assim como uma fotografia possui relação com o seu negativo: a película.
Na citação a seguir, Klein parte seu raciocínio da evidência de que os brinquedos estão contíguos no espaço e conclui que, se foram colocados próximos intencionalmente no espaço, possuem então alguma relação afetiva e temporal em suas fantasias:
Logo no princípio da sua primeira sessão, Peter pegou os veículos e os carrinhos de brinquedo, colocando-os primeiramente um atrás do outro e depois lado a lado, alternando a disposição várias vezes. Pegou também uma carroça a cavalo e fê-la colidir com outra, de modo que as patas dos cavalos se chocassem e disse: “Tenho um novo irmãozinho chamado Fritz.” (Klein, [1932] 1975, p. 42)
Como podemos ver, os brinquedos que estavam dispostos sob a superfície de uma mesa recebiam desta seu limite espacial; assim, a organização que a criança dá à disposição espacial dos brinquedos, suas escolhas organizacionais e a sequência em que realiza sua ação têm muito a nos dizer:
Os diversos “temas lúdicos” e os afetos a eles associados (que deduzimos, em parte, pelo conteúdo de seus jogos e em parte pela observação direta) são representados lado a lado e dentro de um espaço reduzido, de sorte que podemos ter uma boa visão das conexões gerais e da dinâmica dos processos mentais que nos estão sendo apresentados. Ademais, visto que a contiguidade espacial geralmente significa contiguidade temporal, podemos deduzir a ordem cronológica das diversas fantasias e experiências da criança. (Klein, [1932] 1975, p. 61)
Outro princípio são os raciocínios de causa e efeito, que geralmente são relacionados aos raciocínios por contiguidade: quando vemos um ferimento, logo pensamos na dor, da mesma forma que, ao ter acesso a um cômodo de uma casa, logo pensamos nos outros cômodos; e, naturalmente, pensamos no calor ao vermos o fogo, mesmo que não estejamos perto dele.
“Hoje, o associacionismo como instrumento metodológico, se não como posição sistemática, foi incorporado na Psicologia; a associação de variáveis é geralmente reconhecida como uma tarefa fundamental da ciência” (Marx & Hillix, [1963] 1976, p. 148).
Segundo Marx e Hillix (1973, p. 350), para a psicanálise, “em primeiro lugar, temos os princípios clássicos de contiguidade, semelhança e oposição”; no entanto, sua seleção não está presa a critérios externos objetivos de conexão e seleção, como no empirismo; pelo contrário, o analista leva em conta critérios motivacionais ou de sentimento que muitas vezes não seriam evidentes para a psicologia tida como acadêmica. Assim, a lógica do manifesto também pode ser explicada por mecanismos como: deslocamento, condensação, racionalização, projeção, etc.
3.2 Heurística psicanalítica: a lógica do latente
Freud nos diz que entre paciente e analista nada acontece, apenas uma conversa; apenas pede ao paciente que associe livremente, ou seja, permita que suas ideias fluam sem nenhum tipo de censura, “mais ou menos como se faz numa conversa a esmo, passando de um assunto a outro”, sem nenhum tipo de seleção, seja ela devida a uma crítica interna que considere banal o assunto a ser tratado, seja porque lhe causa vergonha, culpa ou humilhação. Pede-se ao paciente que apenas se comporte como um viajante que, ao estar sentado à janela, descreva tudo o que vê à pessoa que está sentada ao lado, privada de tal visão ([1901-1905] 1996, p. 128).
Zimerman (2004, p. 74) resume a regra da Associação Livre de Ideias da seguinte forma: “1) o paciente deve se colocar em uma posição de atenta e desapaixonada auto-observação; 2) comprometer-se com a mais absoluta honestidade; 3) não reter qualquer ideia a ser comunicada”.
O paradoxo é que Freud ([1900] 2001, p. 510) é consciente de que sua regra é impossível de ser executada, pois estamos sempre sendo arrastados por uma corrente de representações com metas, e nenhuma influência poderá ser exercida que “nos facultará pensar sem representações com metas”, mesmo nos estados de confusão psíquica. Assim, novamente Freud concorda com o determinismo preconizado por Hume.
Entretanto, continua Freud ([1900] 2001, p. 509), o que a proposta da regra fundamental cria é a possibilidade de nos libertarmos das “representações com meta que nos são conhecidas”; quando fazemos isso, “as representações com meta desconhecidas – ou, como dizemos de forma inexata, ‘inconscientes’ – assumem o comando”. Explica-nos que o termo ‘livre’ não quer dizer indeterminado, mas que, ao se livrar da determinação consciente, deixe que outro agente determinador aja sobre o conteúdo – o Inconsciente. A escuta, por essa razão, será feita sob os pensamentos involuntários, que quase sempre são sentidos como perturbadores da trama principal cuja intenção o paciente buscava falar, porém normalmente os deixa de lado.
Aqui temos o momento crucial em que a escuta psicanalítica se distingue daquela que Hume e os empiristas como um todo buscavam defender – enquanto estes investigavam o entendimento humano pela via das representações com metas conhecidas e, portanto, voluntárias, Freud passou a ouvir as representações com metas desconhecidas e, portanto, o pensamento involuntário.
Essa escuta descentrada do assunto que o paciente buscava imprimir permite uma ampliação dos sentidos para além do tema proposto. Essa articulação perverte o raciocínio empiricopositivista, já que para este o primado é da consciência e da razão, enquanto a prática clínica, portanto, segue ao avesso do que comumente é considerado fazer ciência, pela descentralização que provoca o sujeito.
O entendimento dos princípios metodológicos empiristas, que consideram as leis da semelhança, contiguidade e causa e efeito como princípios de conexão, são úteis para o clínico apenas na proposta de não se colocar nos lugares onde as representações com metas conscientes buscam dar-lhe, já que é através da localização de onde o paciente está com sua consciência que o clínico consegue não estar, e, assim, torna-se possível a descentralização do sujeito para o sujeito do inconsciente.
Podemos observar tal procedimento no exemplo a seguir, quando uma paciente expressa a seguinte ideia:
Paciente: __ Eu amo meu marido, mas está muito difícil continuar vivendo com ele (pausa).
Paciente: __ Ele é muito agressivo, me bate (lágrimas).
Paciente: __ Já não bastava meu pai, agora, meu marido.
Paciente: __ Engraçado, eu não consigo ter ódio do meu pai.
Terapeuta: __ O que te levou a pensar em ódio ao falar do seu pai? (A. S. Serra, comunicação pessoal, 25 de maio de 2019).
Esta associação foi pensada da seguinte forma: o assunto da paciente era a semelhança existente entre o marido e o pai – os dois são violentos; a paciente buscava intencionalmente (conhecidamente) mostrar o quanto a sua vida era marcada pela agressividade, entretanto, reconhece um amor pelo marido, mas não reconhece esse mesmo amor pelo pai (essa afirmação não surge no relato); no entanto, reconhece seu ódio pelo pai, mesmo que através de uma negação. Seria plausível ter ódio do marido, já que este a violentava, assim como seria plausível ter amor pelo pai, já que foi ele quem a criou.
A participação do terapeuta partiu de uma descentralização; no caso, o ódio que surgiu involuntariamente na consciência da paciente perturbou o seu relato e foi deixado de lado defensivamente através da negação. Tal abordagem resultou em uma expressão de revolta contra a figura paterna que durou algumas sessões; o constrangimento da paciente em aceitar tal ódio pelo seu pai foi consequência de sua angústia para manter sua autoestima e por acreditar que deveria amar seu pai, e não o odiar; foi essa a elaboração que realizou sobre sua resistência.
O próximo passo seriam os demais afetos que foram deixados de lado pela paciente: o ódio ao marido e o amor ao pai. Pelo prisma da teoria, sabemos que tudo se explica pela sexualidade e censura edípica imposta; entretanto, é o desvelamento do sentido no tempo da escuta que tem seu efeito.
Com outra paciente, a associação com metas conhecidas (como diria Freud) aconteceu da seguinte forma:
Paciente: __ Meu marido é um homem caseiro: de casa para o trabalho, do trabalho para casa; não bebe, não fuma, não é mulherengo, pelo menos nunca fiquei sabendo nada dele. (Pausa)
Paciente: __ Diferente do meu pai, que bebia, saía com outras mulheres, não voltava para casa.
Terapeuta: __ E mesmo assim você continua insegura com ambos, da mesma forma que é insegura comigo sobre o quanto a terapia pode te ajudar a resolver suas questões. (A. S. Serra, comunicação pessoal, 25 de novembro de 2018).
Conscientemente, a paciente buscava me dizer que eram grandes as diferenças entre o marido e o pai e que, por essa razão, possui uma vida estável com este; um empirista diria que o princípio de conexão foi a semelhança por oposição, porém a escuta estabelecida levou em conta a similaridade (a repetição) das incertezas e instabilidades que indiretamente apareciam em suas relações com as pessoas, inclusive com o terapeuta, em que, através de atrasos, faltas e outras coisas, demonstrava dúvidas sobre continuar ou não com a terapia. O fato de o marido ser o avesso do pai o tornava apenas o negativo deste, como a película é de sua fotografia, enquanto a afetividade continuava com suas características que os une um ao outro.
A escuta do pensamento involuntário e, portanto, descentrada da consciência, busca desfazer aquilo que o deslocamento buscou realizar. Freud ([1900] 2001, p. 512) chama esses pensamentos, que ora são banais, ora são evitativos, de associações superficiais, pois possuem elos de ligação frágeis ou até absurdos; entretanto, “as associações superficiais são apenas substitutas, por deslocamento, de associações mais profundas e suprimidas.”
Para ele, os pilares básicos da técnica psicanalítica se resumem, então, em dois teoremas: o primeiro versa sobre um ataque da censura ao elo entre dois pensamentos que, isolados, não geram objeção; o segundo caso é o ataque da censura aos dois pensamentos que, por si sós, geram objeção em consequência de seu conteúdo ([1900] 2001).
Em ambos os casos, a pressão da censura resultou num deslocamento de uma associação normal e séria para uma associação superficial e aparentemente absurda. … e sinto-me justificado para inferir que o que se afigura como as coisas mais inocentes e arbitrárias que ele me conta está de fato relacionado com sua enfermidade. (Freud, [1900] 2001, pp. 512-513)
Nossa consciência atua como um mágico que, para esconder os mecanismos de seu truque, conduz nossa atenção para outra direção, enquanto nos bastidores as verdadeiras conexões acontecem.
3.2.1 Atenção Flutuante: a contrapartida da associação livre
Se na associação livre de moldes empiristas o primado é da consciência e da razão, basta uma escuta com atenção concentrada e condições intelectuais satisfatórias para que seus princípios de conexão dos pensamentos voluntários sejam descobertos e suas intenções sejam reveladas. Da mesma forma, a Psicanálise, ao inaugurar uma escuta pautada no pensamento involuntário e na emoção, necessita, então, de uma escuta pautada em uma atenção suspensa, flutuante, e também de condições emocionais satisfatórias do terapeuta, para que seus princípios latentes de conexão sejam descobertos e suas intenções inconscientes desveladas.
Racker ([1982] 1988) nos explica que a atenção flutuante é a disposição interna básica do terapeuta que, após se identificar com os pensamentos, sentimentos e desejos do paciente, se lança à associação livre, admitindo todos os tipos de pensamento ou sentimentos possíveis. O terapeuta, estando bem identificado e mais livre de resistências e repressões do que o paciente, terá pensamentos e sentimentos que o paciente não teria e que, por essa razão, o material surgido seria a expressão do reprimido e do inconsciente do paciente.
Espera-se do terapeuta a mesma capacidade exigida do paciente: que ele seja capaz de dividir seu Ego em dois – um Ego vivencial/observador e outro analítico. Pede-se que ele se abandone ao fluxo de ideias, permitindo, assim, vivenciá-las, ao mesmo tempo que se espera que ele seja capaz de contê-las e apreendê-las. Mais livre de resistências, deverá ser capaz de compreender o rejeitado (Racker, [1982] 1988).
Em se tratando da afetividade do terapeuta como habilitação para a compreensão dos pensamentos involuntários do paciente, o tema da contratransferência se faz urgente, segundo o mesmo autor. Assim como a transferência inicialmente foi tomada como um empecilho ao tratamento, a contratransferência também foi tomada como resistência e sinal de que o terapeuta necessitava de mais análise. Entretanto, com o passar do tempo, a transferência foi se tornando o principal instrumento de compreensão dos estados afetivos inconscientes; à medida que isso foi ocorrendo, a contratransferência também foi deixando de ser vista apenas como um empecilho ao tratamento, para também tornar-se fonte de compreensão dos estados afetivos em que o paciente se encontrava.
A vinheta a seguir é de uma paciente evangélica que estava fazendo seu planejamento familiar; no entanto, reconhecia que o desejo de ter um filho era mais por parte do marido do que dela própria:
Paciente: __ Minha mãe faz aula de violão, dança, ginástica, hidroginástica, é muito ativa e eu tento convencê-la de que ela tem muita idade para assumir diversos compromissos. (Pausa)
Paciente: __ (levemente irritada) Minha mãe não entende, parece que quanto mais eu falo menos ela me ouve. (Pausa)
(Nesse momento, eu estava me sentindo desconfortável por não entender o que estava ocorrendo; distanciei-me mentalmente e me pus a observar o que estava sentindo, porém com dificuldades de transformar meu afeto em palavras; então, me dei conta de que havia pressionado a paciente a aceitar algumas ideias.)
Terapeuta: __ Me parece que eu estou fazendo você se sentir como sua mãe: você tenta convencê-la da incapacidade dela de ser ativa, e você tem sentido minhas falas como uma afirmação sobre sua incapacidade afetiva de ser mãe.
Paciente: (choro intenso) __ Não é só isso: é a minha incapacidade e medo de ser mãe; vou te contar… fiz um aborto… acho que não mereço ser mãe… tenho medo de ele nascer deficiente. (A. S. Serra, comunicação pessoal, 12 de outubro de 2017).
Seguiu-se a isso que começou a surgir, no relato da paciente, o quanto não se sentia amparada pelo seu pai e que hoje sentia o mesmo pelo marido, apesar de ele ser muito atencioso com ela; não sabia como iria ser se o tratamento para fertilidade desse certo; consequentemente, não sabia o quanto suas angústias seriam amparadas também pelo terapeuta, pois temia ser condenada por eles e por mim e, assim, ser penalizada com o desamparo. Nesta sessão, dei-me conta de que estava sendo levado pela contratransferência havia algumas sessões e me encontrei angustiado com isso, pois só percebia o impasse; entretanto, quando consegui parar para vivenciá-la e compreendê-la, notei o que estava ocorrendo. A contratransferência, a princípio, estava a serviço da resistência; conscientizada, tornou-se instrumento de compreensão e intervenção.
A intenção consciente da paciente era relatar sua preocupação com a mãe, que assumia atividades e responsabilidades além de sua capacidade para a idade; no entanto, a escuta foi novamente realizada de forma descentralizada, pois o foco da compreensão não foram as ideias e sentimentos que buscou transmitir em relação a sua mãe, mas sim os sentimentos despertados involuntariamente no terapeuta.
A compreensão da transferência, assim como na contratransferência, também é marcada por essa descentralização para o involuntário. Vejamos um exemplo apresentado por Herrmann ([1979] 1991, pp. 53-55):
Meu paciente esmera-se em pintar uma situação doméstica. É um homem de intenções retas e a esposa as torce, acusa-o de falsidade e de subterfúgio. Meu paciente esquadrinha sua consciência, coloca objeções em minha boca e concede-lhes certa razão. … O transe de raiva leva-o a contrair-se todo, as costas arqueiam-se num princípio de opistótono. Relaxa-se quase que imediatamente e, com voz embargada de gratidão, voltando a enrodilhar-se na sua posição predileta, confessa: “Só o senhor me entende direito”. … [Analista]: “Você ficou duro, quase quebrou-se de tanto ter razão, agora amolece dentro de minha compreensão”.
Percebe-se o seguinte acontecimento: em vez de a escuta centrar-se na tentativa do paciente de relatar sua luta por legitimar-se perante a esposa, expondo suas razões para tal legitimação, a escuta descentrou-se para os pressupostos da conversa e seu efeito sobre o paciente diante da presença do analista compreensivo. Herrmann ([1979] 1991, p. 55) nos fala que essa postura é uma espécie de “puxão no tapete da comunicação.”
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considera-se como essencial para a escuta clínica uma postura descentralizada de tudo aquilo que o paciente buscou com intenção deliberada trazer para a sessão. Essa descentralização acaba por desfazer as construções que mecanismos de deslocamento e condensação realizaram: ataques da censura aos elos de ligação entre ideias que geram objeção isoladamente ou entre si. À medida que o pensamento involuntário é desvelado e novas associações surgem no palco das palavras, a compreensão do terapeuta vai se formando em decorrência da repetição que se apresenta a cada nova ruptura de intenção, ou seja, a cada novo pensamento involuntário abordado.
A escuta orientada pela psicanálise é, portanto, estranha ao paciente, que terá no terapeuta alguém que o frustra quando, em vez de ouvir o assunto proposto, ouve com mais ênfase o que for banal, pensamento involuntário e concepção que o paciente traz de seu ouvinte, o terapeuta (na transferência): o paciente fala de muitas pessoas, e o terapeuta as ouve todas como parte de uma única pessoa – o paciente; este busca falar de seus sentimentos e ideias, e aquele ouve os seus próprios sentimentos despertados na contratransferência; para o paciente, ele sempre está trazendo assuntos novos ou continuando velhos assuntos com novos fatos; para o terapeuta, independentemente dos muitos assuntos trazidos para a sessão, ele estará ouvindo tudo como pertencente ao mesmo assunto; o paciente vai estar falando de passado, presente ou futuro, estará dominado pelo seu Cronos; o terapeuta estará em um tempo kairótico, que, por ser assim, apenas pode ser marcado pelo agora.
Considera-se, então, um (des)encontro cuja essência está numa escuta clínica descentralizada: estranha ao paciente, avessa à ciência tradicional, mas que cria mundos novos a cada novo caos que a cria.
REFERÊNCIAS
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1 (Autor) Psicólogo; Pós-Graduando em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica na UCDB – Universidade Católica Dom Bosco. Chapadão do Sul – MS, Brasil; CEP: 79.560-000. Bairro: Espatódia; rua: Aparecida do Taboado, nº 47. Cel: (67) 9-8149-9898. Email: Adrian_psic@hotmail.com
2² (Orientadora deste artigo) Doutora em Psicologia Clínica, membro efetivo e analista didata da Sociedade Mato-grossense de Psicanalise ligado a IPA – International Psychoanalytical Association; Coordenadora da Pós-Graduação em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica da UCDB – Universidade Católica Dom Bosco.
