
Você já tentou desligar um alarme de incêndio enquanto a casa ainda soltava fumaça? Pois é exatamente isso que muitos fazem com a ansiedade. Cortar esse fio seria como silenciar o alarme sem investigar a fumaça.
Antes de qualquer coisa, vale um alerta importante: apesar de boa parte das pessoas buscar o consultório com o desejo de eliminar a ansiedade, ela não é algo que deva ser morto. A ansiedade é uma reação natural de sobrevivência diante de um pensamento de perigo — muitas vezes um perigo que a gente ainda não sabe nomear. Se a tiramos à força, tiramos da pessoa sua própria bússola de proteção. A grande questão é sobre para que essa proteção natural se transforma em sintoma.
Falarei da Ansiedade em geral, e portanto, essas cinco dimensões refere-se a todo tipo de Transtorno de Ansiedade, seja ela: Transtorno de Ansiedade generalizado -TAG, Transtorno do Pânico, Transtorno de Ansiedade Social (Fobia Social), Transtorno de Ansiedade de Separação, Agorafobia, Mutismo seletivo, etc. Podemos incluir aqui o Transtorno Compulsivo Obsessivo ou outros quadros que podem ter a Ansiedade como sintoma.
Conhecer as – cinco dimensões da ansiedade – é, por isso, um passo fundamental. É o que nos permite discernir o que é ansiedade do que não é, e entender como a psicoterapia acolhe esse acontecimento da vida mental. Para quem vive crises, essas dimensões não são perceptíveis antes da terapia — mas estão lá, moldando o sujeito em silêncio.
1ª dimensão: Um modo involuntário de pensar
A primeira e principal característica é que a ansiedade é um pensamento involuntário — mais especificamente, um modus operandi involuntário de pensar.
Essa é a dimensão é o verdadeiro gatilho (psicológico) da Ansiedade e que mais determina a subjetividade do sujeito: o seu jeito de ser, de se relacionar, de amar ou odiar, as escolhas que faz, mesmo nas questões mais simples da vida. Se a ansiedade funciona como o alarme que sinaliza onde a vida será mais segura e feliz, então a cada escolha ela se faz presente mesmo naqueles que não possuem uma desordem em seu sistema de defesa.
O problema fundamental surge quando a ansiedade é um sintoma, e não uma reação realista a uma situação de perigo. Nesse caso, ela é alimentada pela fantasia — ou seja, por um realismo interno. O sujeito reage como se estivesse diante de um perigo externo, quando na verdade a ameaça é construída dentro dele. Mas não se engane a verdadeira realidade humana é mental e por isso a principal. Nosso sofrimento vem muito mais da interpretação que damos aos acontecimentos do que dos acontecimentos em si mesmos.
2ª dimensão: O medo
Muitas editoras, ao traduzir essa experiência para o português, preferem usar a palavra medo em vez de ansiedade — simplesmente porque não existe um único termo em nossa língua que abarque todas as cinco dimensões (o mesmo acontece com a palavra angústia, que abordaremos daqui a pouco).
O fato é que o medo é condição obrigatória. Na clínica, não existe “ansiedade boa” — ansiedade pela viagem que vai chegar, pelo aumento que vai cair na conta, pela festa do fim de semana. Não. Ansiedade sempre vem acompanhada da sensação de perigo.

3ª dimensão: A angústia
Aqui entram as manifestações no corpo. Angústia, muitas vezes usada como sinônimo de ansiedade, diz respeito às alterações fisiológicas que ela provoca — nem sempre perceptíveis. Durante uma crise, no entanto, elas se escancaram: alteração nos batimentos cardíacos, respiração curta e ofegante (hiperventilação), mãos frias e suadas, tremores, cansaço extremo.
É importante ressaltar que esses sintomas só se tornam perceptíveis nas crises, mas a ansiedade sempre gera alterações no sistema circulatório e respiratório. A circulação sanguínea diminui no rosto e nas mãos e aumenta nos ombros, abdômen e pernas — é o organismo se preparando para lutar ou fugir. Por isso, há uma tendência a rugas e manchas precoces na face e no dorso das mãos: são regiões menos nutridas e oxigenadas pela corrente sanguínea.
4ª dimensão: A relação com o tempo
A ansiedade é uma expectativa de futuro iminente — algo prestes a acontecer.
É você andando pela rua, um cachorro aparece à sua frente, você não sabe se ele vai te morder ou se afastar. Ele não dá sinais claros de agressividade, mas seu pensamento aponta para um ataque, o medo se instala, a angústia altera seu corpo e você decide voltar e seguir outro caminho.
A ansiedade pelo que pode acontecer amanhã não é ansiedade em sentido clínico — é expectativa de futuro. É comum uma criança que soube que vai passear na casa da vovó no fim de semana ficar agitada, ter insônia, perguntar toda hora sobre o passeio. Isso não é ansiedade; é expectativa. Pode até haver dificuldade de controle de impulsos, beirando a hiperatividade, mas não se deve medicar. A casa da vovó é um lugar feliz e prazeroso, gostar de ir lá não é um transtorno mental é um ato de amor assim como outras expectativas de futuro positivas que venhamos a ter.

5ª dimensão: Uma vocação, um dom
Só tem medo de morrer quem tem muita vontade de viver. A pergunta que fica é: que vida é essa que o pensamento apresenta como ameaçada? Que existência frágil é essa que o pensamento involuntário fantasioso encontra em risco?
O psiquismo está governado pela fantasia de que algo é maior do que nós — e a ansiedade é, portanto, um misto de admiração pela grandeza e temor por algo que ainda não sabemos nomear, mas que já sabemos expressar em linguagem corporal e sintoma. Essa grandeza que tememos é o lugar da nossa vocação:
Quem tem medo de dirigir talvez tenha o dom de governar, mas não o exerce por medo. Quem tem medo de falar em público talvez seja alguém com o dom de influenciar, mas não o pratica. Quem se angustia em meio à multidão talvez pudesse ser um artista, um líder — mas condena severamente a própria grandeza.
O grande problema da ansiedade não está nos sintomas físicos que ela pode trazer, mas no quanto ela limita a vida. Ela cria uma experiência emocional e ideacional que leva o sujeito a fugir de si mesmo e a não alcançar o potencial de vida que carrega. A sensação é de que a ansiedade protege. Mas, quando se torna um sintoma que paralisa, ela mata justamente o melhor de você.
Se você se reconheceu em algum trecho, talvez seja a hora de olhar para sua ansiedade com outros olhos. A terapia não vai matar seu alarme — vai te ajudar a decifrar o que ele está tentando proteger e para qual grandeza sua ela busca apontar.
